Zé Geraldo: “Expressar o pensamento político é risco de vida no Brasil de hoje”

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O lendário cantor e compositor Zé Geraldo se apresenta nesta quarta-feira (1) no Clube de Campo dos Metalúrgicos, dentro da programação do Dia do Trabalhador, promovido pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Jundiaí, Várzea e Campo Limpo.

Em entrevista exclusiva ao Oa, Zé Geraldo fala de seus 40 anos de carreira, dos novos projetos e dos tempos difíceis da vida e política brasileira.

Está faltando equilíbrio e bom senso e não digo apenas para a classe política, está faltando para a sociedade como um todo. Chegamos a um ponto de nossa vida no Brasil que é perigoso até você dizer a cor que você gosta, seu time de futebol, sua religião. Não vou nem falar seu pensamento político porque aí você corre risco de vida.

Em Enquanto Há Tempo, de Bruno Caliman, Zé Geraldo relembra a sonoridade da clássica Como Diria Dylan e outros tantos sucessos de seus mais de 30 e muitos anos de carreira.

Fala Zé

Enquanto Há Tempo é um canção otimista? Há algo de Como Diria Dylan revisto para os tempos de hoje? Ou é um alerta para um País que está num período triste?

Enquanto Há Tempo é uma canção que tenta mostrar que a solução pras nossas coisas pode ser encontrada no seio da população mesmo, que anda um pouco descrente com a nossa classe política de todos os lados. Como Diria Dylan é uma canção que é mais poética, um tentar acordar o companheiro do lado, lembrar que você pode escrever sua história pelas suas próprias mãos. Enquanto Há Tempo é mais um grito, um chamamento pra nossa realidade dos dias de hoje. Mas as duas se completam.

Você sente que adiantou alguma coisa falar tanto tempo a respeito de um mundo mais justo?

Nossa esperança para um mundo melhor e mais justo é histórica, de muito tempo. Passa de geração pra geração e eu me incluo aí, na minha batalha diária dos meus versos. Agora, sempre vale a pena, por mais que você se decepcione, por mais que você tenha que dar um passo atrás, se a gente não tiver esperança de que amanhã vai ser um dia melhor a gente nem sai de casa para trabalhar. Então, claro que valeu a pena todo esse empenho, toda essa luta, todos esses versos que eu tenho cantado com outros companheiros nessa esperança de que amanhã possa ser um dia melhor, mais justo para todos.

Como você está vendo esse Brasil que já se pode escutar em Enquanto Há Tempo? Que diz essa nova fase de seu trabalho?

Eu estou completando agora, este ano, 40 anos do meu lançamento com o disco Terceiro Mundo, pela CBS, e um dos meus planos agora é regravar esse disco com o som de hoje e relançá-lo com o título Terceiro Mundo — 40 anos. E dentro dos projetos para este ano estou fazendo um trabalho inédito com o violeiro de Joanópolis Francis Rosa (foto ao lado), que vai se chamar O Poeta e o Violeiro. Nós já escrevemos juntos algumas canções e estamos agora em fase de gravação. E está um pouco puxado porque eu também estou fazendo o meu disco do ano — faz tempo que eu não lanço um trabalho inédito — que vai se chamar Ei Zé.

De seu início de carreira, daquele panorama de País e mundo, o que mudou?

Do meu início de 40 anos como profissional até hoje o que mudou? Na música apareceram coisas novas, movimentos novos vindos da periferia como o rap principalmente, coisas que eu não curto mas não posso deixar de tomar conhecimento porque são coisas que estão acontecendo ao meu redor, no meu tempo, e eu tenho que ver o que está acontecendo ao meu redor. Eu continuo com a minha levada. Eu tive propostas para gravar outro tipo de música mas não tive interesse e continuei a minha história seguindo o meu caminho com as dificuldades naturais que qualquer carreira apresenta e, principalmente, quando o sistema dá as costas pra você e você tem que buscar forças para seguir o seu caminho. E foi o que aconteceu comigo de alguma maneira e eu também dei as costas pro sistema.

Você falava e falou durante toda sua carreira a respeito da desigualdade, do brilho falso das coisas materiais, e hoje vivemos um mundo onde poder e dinheiro dão as regras. 

O mundo está dando uma guinada à direita. Nós estávamos acostumados a conviver com a direita e o que se apresenta agora é uma extrema-direita, que nós estamos vivendo aqui. O que nós temos é que continuar a defender o que nós acreditamos, incentivar a população, especialmente a população jovem a se interessar pelos problemas do País e, ao contrário do que alguns pregam, de que os jovens não devem se interessar por política eu acho que devem se interessar sim, devem discutir as coisas que estão acontecendo no nosso País. Não com a ignorância e como extremismo com o radicalismo que está pautando nossos dias, mas com bom senso, com equilíbrio. Está falando equilíbrio e bom senso e não digo apenas para a classe política, está faltando para a sociedade como um todo.

Eu não tenho mais idade nem saúde pra ficar batendo boca com idiotas pela internet ou correr risco de me apresentar em shows e ser agredido de graça

O que aconteceu como ser humano, com o brasileiro especialmente?

Chegamos a um ponto de nossa vida no Brasil que é perigoso até você dizer a cor que você gosta, seu time de futebol, sua religião. Não vou nem falar seu pensamento político porque aí você corre risco de vida. Eu acho que o ser humano se perdeu. Aquele que era outrora o único animal inteligente se perdeu. Você não vê um bicho matar o filho. O homem se perdeu completamente. Mas nós temos que ter esperança de que amanhã, com a participação mais e mais ativa da juventude, que a gente possa voltar a ter um ponto de equilíbrio e uma convivência pacífica, cada um pensando à sua maneira e respeitando a forma do outro pensar. Porque o que existe hoje é uma intolerância total. Eu fico com medo de sair na rua com a camisa do meu time. Eu não tenho mais idade nem saúde pra ficar batendo boca com idiotas pela internet ou correr risco de me apresentar em shows e ser agredido de graça. Então eu incentivo a molecada a mais e mais se interessar pelas coisas que estão acontecendo ao nosso redor, mas buscar sempre uma convivência equilibrada, respeitando sempre a opinião do outro. Porque a divergência faz parte do crescimento, a discussão sobre pontos divergentes faz parte do crescimento de cada um.

Nós não podemos deixar que a esperança seja levada por essa água suja que está carregando tudo aí a gente nem sabe pra onde.

Existe um caminho? Que caminho é esse pra esse povo quase sem esperança?

Existe. Porque o povo está meio desesperançoso, mas a gente tem que buscar trazer de volta essa esperança pro nosso dia a dia. Como eu falei anteriormente, nós temos que acreditar que amanhã vai ser um dia melhor. Nós temos que fazer nossa parte, buscando um relacionamento tranquilo com nossa família, com nossos pares, com a nossa sociedade, com nossos amigos, com nossos adversários, com aqueles que pensam diferente e a vida tem que seguir o seu curso. Nós não podemos deixar que a esperança seja levada por essa água suja que está carregando tudo aí a gente nem sabe pra onde. Mas eu, apesar do meu pessimismo, acredito que nossos filhos, nossos netos podem ter uma vida mais justa, mais pacífica. Uma convivência mais tranquila e que possam ter acesso às escolas, que não tenham que passar pelas dificuldades que passamos ao longo dos anos. E também que essa onda de violência, de ódio, esse discurso de ódio que é pregado pela maioria de nossos governantes, que isso passe e que seja o mais rápido possível. Se Deus quiser.

Você vai tocar numa festa de Primeiro de Maio num sindicato de metalúrgicos. Que significado tem isso?

Bom, eu vou participar da Festa do Trabalhador. Não sou mais aquele militante que eu era de ir pra rua, todo Primeiro de Maio eu estava engajado, mas eu na medida do possível eu participo porque acho importante porque eu sou um trabalhador e acho importante você levar sua mensagem a esses trabalhadores, a essas pessoas que ainda tem a disposição, a coragem e o ânimo de irem pra rua reivindicar. Eu hoje vou muito pouco, mas as minhas músicas estão presentes e de alguma maneira eu estou presente também nesses movimentos todos. Vou sim participar dessa festa do trabalhador em Jundiaí com a maior alegria, encontrar amigos artistas que também vão participar, encontrar pessoas, sindicalistas e levar a nossa força, o nosso apoio como uma maneira de dizer que a gente acredita que amanhã vai ser um dia melhor

40 anos de estrada

Nascido em Rodeiro, na Zona da Mata mineira, e criado em Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, o cantor e compositor Zé Geraldo caiu na estrada cedo.

Com 18 anos foi estudar e trabalhar em São Paulo, ainda com o sonho de se tornar jogador de futebol. Mas, um acidente automobilístico mudou o rumo de sua história e, com pouco mais de 20 anos, suas jogadas foram transformadas em versos e canções.

Entre 75 e 78 participou e foi premiado em inúmeros Festivais até gravar, em 1979, seu primeiro disco como Zé Geraldo, “Terceiro Mundo” (CBS).

Ainda pela CBS lançou “Estradas” (80) e “Zé Geraldo” (81). Canções como “Cidadão”, “Como diria Dylan” e “Senhorita”, indispensáveis no repertório de seus shows, fazem parte desta primeira safra de gravações, assim como “Rio Doce”, com a qual Zé Geraldo participou do Festival MPB-Shell de 1980, e “Milho aos Pombos”, que tornou o artista conhecido em todo o Brasil no mesmo festival promovido pela Rede Globo, em 1981.

Com 40 anos de carreira, Zé Geraldo tem 16 discos lançados, fora coletâneas e compactos.

Seus versos são cantados em uníssono por um público fiel, que acompanha seus shows em Teatros, Feiras, Exposições e Ginásios.

Como diria seu amigo, o cantor e compositor Gutemberg Guarabyra:

“A sua voz ecoa nos rodeios e nas universidades fazendo sonhar, fazendo sorrir e dançar. Sem preconceito… É o inacreditável mundo de Zé Geraldo. Um brasileiro e tanto”.

 

Clube de Campo do Sindicato dos Metalúrgicos

Rod. Pres. Tancredo de Almeida Neves, km 53/54. Bairro do Castanho

Entrada gratuita para sócios. Não-sócios pagam R$ 20,00

Mais informações sindicatometal.org.br

Para estacionar dentro do Clube de Campo, é necessário a apresentação da carteirinha de sócio na portaria.

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