Não existem eles. Somos todos nós. Uma só humanidade

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Esta semana tive a oportunidade de viver uma experiência diferente e enriquecedora: falar ao vivo e online para estudantes de 11 a 14 anos a respeito de pequenas atitudes que podemos ter para deixar a vida mais simples.

O convite veio da amiga Andréa Terra, professora História e Geografia do Colégio Educarte de Campo Limpo Paulista (SP).

Durante a semana gravei pequenos videos mostrando alguns aspectos do que já consigo desenvolver no sítio onde moro. Coisas como a compostagem com e sem minhocas, o plantio direto sem cavar o solo, o uso e reuso da água.

O material foi compartilhado com os jovens e professores. E, na quarta-feira, falamos ao vivo por mais de uma hora. Mais de 80 estudantes e professores. Uma energia muito boa e positiva.

Conversando ao vivo pelo celular, pude mostrar como é simples montar um pequeno fogão a lenha, como usar as cascas de frutas e legumes para compostagem. Ou ainda, como é fácil de fazer e usar uma torre de minhocas.

Mas especialmente, falar e responder perguntas de estudantes interessados. Uma alegria perceber que existem jovens olhando para o lado mais simples e essencial da vida e professores e uma escola dispostos a inventar formas novas de ensinar.

A oportunidade surgiu justamente num momento em que o País (especialmente) e o mundo vivem uma crise. Crise potencializada pela disseminação do novo coronavírus, mas que tem origens e razões muito mais profundas.

Da crise veio a oportunidade de falar online, via celular, para um grupo de estudantes. Algo que dificilmente aconteceria se não estivéssemos vivendo um momento de quarentena.

E falar de algo essencialmente importante: produção do próprio alimento.

Existe um movimento crescente e, agora, em razão da crise, ganhando cada vez mais espaço, de um caminho pra a produção do próprio alimento, a busca da segurança alimentar.

Afinal, do que mesmo precisamos para sobreviver além de ar e sol? Comida e água.

Claro, a gente não quer só comida, quer diversão e arte e saída para qualquer parte, mas sem comida e água não há saída e não há diversão nem arte.

É essência da vida.

E boa parte da humanidade vem deixando essa responsabilidade para grandes empresas, o que se convencionou chamar de agronegócio. Veja bem o nome: agronegócio.

Pois é isso mesmo, um negócio. Negócio implica pensar em dinheiro. E dinheiro tornou-se a principal mola propulsora da sociedade.

Mas se a gente for ver bem, plantar comida é como imprimir o próprio dinheiro. É segurança. É paz. A sensação de comer o que se plantou é simplesmente maravilhosa.

E esse movimento que transforma o mundo vem ganhando cada vez mais força, com milhares de pessoas compartilhando informações via internet.

A experiência de uns potencializando o plantio de outros.

Nada é por acaso.

Justamente esta semana participei, também online, de uma aula (Masterclass) com uma pessoa que admiro e gosto, a australiana Morag Gamble, uma das principais incentivadoras e divulgadora da Permacultura.

Permacutura, ou cultura permanente, é pensar a Terra com esse lugar finito, sem Plano B, onde todos vivemos. E pensar de uma forma onde exista espaço e comida para todos. Permanentemente.

Na natureza não existe lixo. A natureza de retroalimenta. As folhas que caem das árvores formam o solo para outras plantas. E assim o ciclo se perpetua.

A Permacultura, conceito e técnica desenvolvidos por Bill Mollison e David Holmgren, tem uma legião de adeptos no mundo todo, eu entre eles.

Morag Gamble usa o exemplo de sua própria casa para ensinar. Sua casa está envolvida por um poderoso e saudável jardim comestível. Ela não só ensina a plantar e colher, mas também como preparar e o que comer de cada planta.

Segurança alimentar é também plantar sem agrotóxicos, sem venenos. Pois não é preciso quando se tem um jardim de comida com múltiplas espécies convivendo harmonicamente.

Um jardim de plantas comestíveis (e também flores e frutas que os bichos gostam), atrai insetos polinizadores, como abelhas e borboletas, pássaros e tantos outros.

Plantar comida com abundância permite que bichos e humanos comam e vivam. A Natureza é sempre abundante. Há espaço e comida para todos, desde que esse espaço seja usado de forma inteligente.

Pense um pouco:

Como é que existe uma floresta densa e diversa como a Amazônica e a Mata Atlântica (seriamente ameaçadas por atitudes gananciosas de quem só pensa em dinheiro) sem que se precise regar, adubar e podar?

Existe porque a Natureza se equilibra e as plantas estão conectadas, vivem um sistema. Plantas gostam de viver juntas. E para cada árvore ou arbusto que conseguimos ver, há uma complexa rede de raízes se conectando.

O solo é a base. É nele onde vivem milhões de microorganismos que transformam folhas, casas de frutas, sementes e restos de outros bichos em alimento para as plantas. Um ciclo contínuo. Sem lixo, sem lado de fora.

Assim como planeta em que vivemos. Não tem lado de fora. Não tem eles. Estamos na Terra e aqui só existe nós. Não tem os outros, somos todos humanos aqui vivendo nesta pequena bola azul viajando no espaço.

O que Morag Gamble e outros plantadores estão mostrando é que precisamos, mais do que nunca, olhar para o que é essencial. E comida é essencial. Plantar a própria comida é um atividade que precisa mesmo ser ensinada nas escolas.

“A permacultura é uma maneira prática e positiva de projetar, pensar, viver e jardinar com abundância e cuidado.” Morag Gamble

Quando se pensa em comida vivendo ao lado de supermercados e com dinheiro no bolso talvez isso não faça grande sentido, mas num campo de refugiados como muitos que existem hoje ou em regiões carentes é questão de viver ou morrer.

Hoje, jovens de diversos países se comunicam em uma rede que permite compartilhar experiências e aprender mais e mais. E quem aprende vai ensinando outros em um ciclo sem fim.

Ensinar essa cultura permanente é trazer de volta a dignidade humana para muitas pessoas que hoje vivem sem esperança.

Olhar para o essencial da vida é também questionar o modelo de sociedade no qual estamos inseridos. E é preciso.

A contínua crise econômica, política, de guerras e conflitos serve apenas para mascarar a verdade de que poucos dominam em benefício próprio enquanto muitos lutam pela sobrevivência, sem tempo nem energia para realmente viver a vida.

Olhar para o simples e essencial é recuperar o poder de decidir o que fazer com o próprio tempo.

E deixar fluir a vida em seu ritmo próprio.

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A imagem no destaque é do site Steps2Permaculture