A cidade respira um ciclo de discussões sobre economia criativa que se estende até quinta.

Para a dupla Christian Ullman e Tânia de Paula, que tratou do assunto na noite de segunda-feira (21) dentro da Jornada Senac de Economia Criativa, esse assunto faz sentido diante de crises porque foi assim que surgiu desde a década de 1990 quando passou a ser vista em países desenvolvidos como a Inglaterra no cenário da mudança do antigo sistema industrial de empregos em fábricas para os efeitos iniciados sobretudo pela globalização e pelas mídias digitais.

Algo que vive hoje o Brasil, tanto na crise como no debate dentro de comunidades, empresas e instituições, mas ainda sem uma política pública mais clara como ocorreu em outros lugares.

Essa mudança, em resumo, começa na escala da própria pessoa, avança como no limite da empresa, avança para efeitos benéficos ao ambiente e pode chegar a uma mudança na própria cultura da comunidade.

Casos – Christian (foto) e Tânia, por força de ofício, mostram a aplicação desse “olhar de design” (criatividade + inovação) em projetos do setor como fizeram nas experiências desde o início dos anos 2000 em sua chamada Oficina Nômade, que já passou com intervenções de pequena escala por comunidades ou projetos em todas as regiões do país.  

Em Novo Horizonte (SP), onde o material disponível era apenas bagaço de cana, oficinas de modelagem desenvolveram com ele os novos objetos de apoio para valores locais como o café com açúcar orgânico ou a paçoca familiar, além de desenhos em camisetas ou materiais criados a partir dos pontos de convivência dos jovens, como o rio ou um mirante.

“Eles nos mostraram lugares além do olhar convencional de turistas, o que só ocorre com o envolvimento dos atores sociais”, explicou Tânia.

Em Maruanum (AP), no extremo norte do país, um grupo de artesãs louceiras teve identificadas as marcas individuais usadas na argila e suas influências indígenas ou africanas ancestrais para o desenvolvimento de embalagens e formatos para mercados mais sofisticados.

“Elas tinham a técnica e a cultura, mas faltava mostrar esses fatores ao lado do produto”, diz Christian.

Todos os casos citados mostram que grande parte de projetos de economia criativa desse tipo exigem uma extensa pesquisa de técnicas, materiais, histórias e tradições.

Em comunidades da mata atlântica remanescente no Vale do Ribeira, em São Paulo e Paraná, isso permitiu a valorização de diversos produtos e eventos, aumentando a importância dos serviços associados ao ecoturismo.

Em Serra Azul, no interior paulista, o único material disponível que era uma argila especial usada para tijolos vendidos a R$ 0,10 a unidade gerou também, depois de pesquisas e oficinas, produtos complementares de mesmo volume comercializados a R$ 5. E assim por diante.

Além de cursos nacionais e internacionais, a dupla faz questão de citar a importância do aprendizado com pessoas como seu Pedrinho, na comunidade de Jamiraquá do rio Tapajós, sobre a conexão entre pessoas, valores e meio ambiente.

Movimento social – Usando um exemplo de comerciantes de uma rua da Áustria, que nos fins de semana fecham a via aos carros e cobrem uma parte dela com grama sintética repleta de mesas e cadeiras, eles lembraram que nem sempre as iniciativas dependem de governos.

Na capital, o fechamento da avenida Paulista aos domingos foi na área pública, a luta pela revitalização do Largo da Batata depois de uma reforma árida de concreto foi um movimento comunitário (que até virou instituto social para apoiar outras iniciativas do gênero).

Na verdade, os brasileiros sempre conheceram iniciativas criativas – desde as festas juninas ou os mutirões feitos por uma comunidade até a criação ou melhoria de espaços de convívio e criatividade.

No público da palestra foram citadas em exercício final iniciativas de desenvolvimento local em bairros como Retiro, Novo Horizonte ou São Camilo e iniciativas socioculturais como Ocupa Ponte Torta entre outras como a experiência do Ocupa Colaborativa.

Mas um tema central mesmo foi a perspectiva do turismo e a necessidade de melhorar a informação da comunidade sobre sua própria cidade e seus eventos – no curioso fenômeno onde o aumento das redes digitais muitas vezes complicou o contato com a realidade local.

Por outro lado, foram citados exemplos em que mídia pode reforçar o processo como em no galpão de uma antiga usina elétrica em Londres que poderia ter virado apenas uma torre de 40 andares ou um parque público – mas virou uma terceira coisa, um espaço criativo cuja ponte apareceu no cinema e isso acabou gerando turismo. 

E um exercício de adivinhação. “Quando mostramos o perfil de uma empresa com atuação em 40 países e mais de 5 mil funcionários, com o mesmo diretor desde 2001, as pessoas geralmente nos apontam o Google, por exemplo. Mas falamos do Cirque de Soleil, surgido a partir da necessidade de renovação do circo”, exemplifica Christian.

Empresas, cidades, plano – O tema da economia criativa continua diretamente presente na palestra desta quarta-feira (23) no Sesc Jundiaí a partir das 18h30, com a especialista Cláudia Leitão falando sobre um plano federal desenvolvido sobre o assunto no início da década, e na quinta-feira (24) no Senac a partir das 19h00 com o autor de murais gigantes, Eduardo Kobra (foto de abertura), falando sobre a relação entre a arte como o grafite e as cidades. 

Um evento paralelo ao tema também foi anunciado na palestra pelo Sebrae Jundiaí para o dia 29, em parceria com o CDL-Sincomércio. E, como está previsto na lei do Plano Diretor, deve estar presente mesmo que parcialmente também em nomes como “Campus Jundiaí” no Plano Plurianual (PPA) em fase de conclusão.

Na prática, a economia criativa da cidade – com suas artes, suas indústrias de conteúdo ou seus serviços criativos – continua atuando todos os dias.