Nenhuma experiência cotidiana é baixa demais para o homem de pensamento

Rovena Rosa, Agência Brasil
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A frase é do título é do pensador italiano Umberto Eco.

Desde que li essa frase, e lá se vão muitos e muitos anos, ela me serve como um guia de enfrentamento de situações cotidianas, nem sempre agradáveis ou fáceis, mas corriqueiras.

O que isso quer dizer — pra mim? Que qualquer acontecimento da vida pode servir para que um homem de pensamento encontre algum aprendizado.

Digo pode porque aprender é uma opção. E ser uma pessoa de pensamento, como diz Eco, também.

E ser uma pessoa de pensamento é enfrentar situações observando as razões para tal enfrentamento. Questionar. Buscar respostas.

Afinal, qual a razão, qual a necessidade de atravessar determinadas situações? O que tenho que aprender com isso? E enfrentar o que for preciso buscando essas respostas.

Umberto Eco levou o pensar a sério. Foi, com certeza, um homem de pensamento.

Chamar Umberto Eco de pensador é, na verdade, apenas um resumo poético-afetivo. O italiano Eco foi escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo, uma personalidade de sua época.

Entre suas grandes obras está O Nome da Rosa, um dos mais instigantes livros que já tive a oportunidade de ler. Mas conheci primeiro a obra do semiólogo Eco, um nome que me veio através do saudoso amigo, também italiano, o jornalista Sandro Vaia.

Esta semana esses pensamentos me vieram novamente à cabeça diante de uma situação um tanto trabalhosa: o entupimento da fossa aqui do sítio.

Fossa?

Sim, fossa. Em sítio temos que dar conta de tudo que produzimos. Digo tudo mesmo. E chega um momento que esse tudo transborda e temos que encontrar alguma solução.

É o tipo de acontecimento onde é bom lembrar que nenhuma experiência cotidiana é baixa demais para o homem de pensamento.

E me coloquei a pensar em como resolver a situação.

Mas a resposta não veio assim direta, foi chegando aos poucos. E a intuição teve parte importante no aprendizado.

Tudo começou, para usar aquela frase clichê, quando percebi uma infiltração na parede da sala. Identifiquei que havia um erro de construção ali, pois o piso do lado de fora da casa estava mais alto do que dentro, logo, a água infiltrava.

Comecei a obra de rebaixamento do piso do lado externo quando me deparei com uma laje de cimento e, ao cavar mais, percebi que ali estava a antiga fossa, feita há uns 30 anos.

Entendi então porque o piso do lado de fora estava mais alto. Quem fez — e não fui eu — percebeu a fossa e simplesmente deixou o piso mais alto e fez a calçada por cima — para não ter que trocar ao fossa de lugar, quando a sala da casa foi ampliada.

Com isso, a memória do local onde estava a fossa foi apagada.

Embora o trabalho tenha sido exaustivo, fiquei feliz por identificar o local. E percebi qual caminho deveria tomar para corrigir a infiltração.

Mas, nada é por acaso, a vida tem sincronicidades, como percebeu e estudou outro homem de pensamento, Carl Gustav Jung. E justamente no momento em que identifiquei o local da fossa ela dava sinais de que precisava de um esgotamento — natural nesse tipo de sistema, mas que não poderia ter sido feita antes porque ela estava escondida debaixo de um piso.

Então resolvi enfrentar. Primeiro colocando um produto com bactérias que diluem o material. Não deu certo. Depois chamando o caminhão limpa-fossa. E também não deu certo. Usei equipamento de desentupir canos e também não obtive resultado.

Portanto, minha experiência cotidiana precisaria (literalmente) ser bem mais profunda.

Então, seguindo a intuição e estudando o assunto, decidi retirar os canos e refazer o sistema. Dentro deles e dentro da caixa, observei, havia uma quantidade imensa de raízes.  E entendi que, realmente não seria possível desentupir sem arrancar tudo.

E foi o que fiz.

Entendi que uma das ligações feitas no passado estava errada e isso contribuiu para a proliferação de raízes entupindo todo o sistema.

Estudando mais compreendi que era possível fazer uma evolução do sistema. O original tinha apenas uma caixa principal e um sumidouro (local para onde vai a água). Os sistemas mais modernos incluem um filtro.

Observando ao meu redor — e observação é outro ponto fundamental para quem quer pensar — encontrei um tambor plástico, uma antiga lixeira também de plástico e pedras que restaram quando quebrei o piso. Material suficiente para fazer um filtro.

Então, o sistema ganhou um filtro e se completou em três câmaras, melhorando infinitamente a eficiência e contribuindo para não poluir o meio ambiente.

Essa epopéia toda, que exigiu um tanto de força física além do pensamento, me fez refletir a respeito de como enfrentamos nossos problemas.

Uma reflexão que fiz de mim mesmo, mas também do País — neste momento dramático em que vivemos — e o mundo.

Em primeiro lugar percebi que temos que insistir, ter um querer de resolver um problema. No meu caso cotidiano eu não tinha uma opção, é algo vital — passa desapercebido para quem vive nas cidades porque existe um gigantesco esquema de recolhimento de esgoto, isso nas cidades onde existe coleta. E, infelizmente, nem são tantas no País.

E se colocar frente à frente com nossas próprias sujeiras realmente não é algo agradável. Mas necessário se quisermos nos limpar e evoluir.

E tem que insistir até que o problema seja resolvido. Quando isso acontece vem uma sensação de vitória, de alegria por ter aprendido com mais uma situação.

E percebi também, que enfrentar, ir lá no fundo, ainda pode trazer a oportunidade de fazer melhor, de inovar, evoluir. No caso, colocar um filtro e transformar o sistema para melhor.

E, pensando, observei também que posso fazer o mesmo com outras situações, desde que tenha a disposição de ir fundo, cavar, e não usar subterfúgios ou saídas mais simples — tentei isso colocando um produto biológico ou chamando o caminhão limpa-fossa, mas sem resultado.

Me observei fazendo isso também em outras situações cotidianas de assuntos mal resolvidos, de deixar pra lá, de achar que a vida vai resolver o que tenho que resolver. Olhar essa lado feio nem sempre é fácil — quase nunca é, eu acho — mas necessário.

E me coloquei a pensar também na situação em que o Brasil vive hoje, com tanta sujeira que foi deixada desde sempre escondida.

Um lixo que está se colocando à mostra.

Uma sociedade profundamente doente, dividida, egoísta. A desigualdade brutal e fria. A negação de um futuro para tantos.

Faço com o Brasil a mesma reflexão que fiz comigo mesmo.

Quando instalei essa fossa aqui no sítio há mais de 30 anos ouvia pela Rádio Eldorado a campanha para despoluição do Rio Tietê. Lembro do repórter navegando pelo rio Tâmisa em Londres e outro às margens do poluído Tietê. Havia esperança de um projeto de salvação do rio paulista.

Havia esperança. Tantos anos depois e tantos bilhões investidos e o Rio Tietê continua tão poluído como antes.

Naquela época o Brasil vivia seu início de redemocratização, havia também esperança de tempos melhores depois dos anos de ditadura.

Vieram as campanhas de preservação da Mata Atlântica, da Amazônia, as leis de garantias individuais, a liberdade de expressão e tantos outros avanços.

Mas, infelizmente, a sujeira, a exemplo do que aconteceu com a fossa do sítio, continuou nos canos, escondida, entupindo tudo.

O Brasil não avançou como um País. Teve alguns avanços em alguns pontos, mas a sujeira dos esgotos continuava lá, tão poluída quando o Rio Tietê. Escondida. E hoje vemos toda essa sujeira transbordar.

Sinto, no entanto, que é isso mesmo que precisa acontecer.

Temos que olhar para o esgoto. Olhar para o lixo. Olhar para o que há de podre em nós mesmos — digo por mim, e cada um que examine a si mesmo.

Só assim podemos encontrar formas de limpar o que é preciso e transformar.

Para o júbilo
o planeta
está imaturo.
É preciso
arrancar alegria
ao futuro.
Nesta vida
morrer não é difícil.
O difícil
é a vida e seu ofício.

Vladimir Maiakovski

A foto de abetura é de Rovena Rosa, da Agência Brasil

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